domingo, 27 de novembro de 2016

Depois da dor


 Depois de uma pausa necessária, voltei...
 Este conto foi publicado no Blogueiras Negras em Outubro (2016), e trata do amor incondicional que liga mãe e filhos, espero que gostem.

                              Depois da dor




Depois da dor…
Ninguém ouviu os gritos meio abafados vindos das imediações do riacho, de cócoras ela mordia um graveto e fazia forças, rezando para não desmaiar, não podia fraquejar agora. Assim, repetia os mesmos gestos que suas antepassadas, era desse modo que recebiam as novas vidas. Sem ajuda, sem testemunhas, apenas ela, a lua e sua dor. Pensou muito antes de chegar naquele ponto. Tentou tirar aquela criança de diversas formas: apertando e esmurrando a barriga, tomando chás quentes, caindo de propósito, tomando analgésicos com cachaça e até bebeu a primeira água fervida de feijão ─ diziam as mais velhas que era tiro e queda ─, mas o bebê guerreiro se agarrou à possibilidade de vida, e não cedeu. Ele lutou para viver! E ela refém da situação. Não tinha como ter aquela criança, morava apenas com a mãe, precisava dedicar total atenção a ela devido a doença, não podia pagar ninguém para ajudá-la, não trabalhava, vivam com o parco auxílio doença da mulher debilitada, era sozinha. O problema maior era explicar aquela gravidez. Como contar depois de tanto tempo que fora violentada pelo melhor amigo na volta da escola? Quem iria acreditar que o rapaz com quem era vista todos os dias entre a escola e o sítio lhe fizera mal? Quem acreditaria que ele fora capaz de arrastá-la para o meio do matagal e lhe machucar tanto? Ele era branco, filho do dono do sítio, era um bom rapaz, já ela…  . Por medo das ameaças do rapaz, ela preferiu deixar a escola que a mãe sozinha. Como era magrinha e pequena para seus dezoito anos, conseguiu esconder a barriga com as roupas largas da mãe, a senhora muito debilitada parecia nunca ter percebido nada. Depois de muito sofrer tomou uma decisão, deixaria nascer e sumiria com aquela triste lembrança, ali naquele fim de mundo onde a casa vizinha estava a cem metros de distância, ninguém tomaria conhecimento.
Quando sentiu as primeiras dores bateu o desespero, mas já havia tomado algumas providências. Respirou fundo e buscou se controlar, precisava esperar anoitecer. As dores ainda estavam espaçadas quando a noite finalmente chegou. Com dificuldade preparou um chá para sua mãe e acrescentou uma generosa dose do calmante, o que garantiria mais conforto para a velha; em seguida pegou a bolsa preparada já há alguns dias, havia organizado um conteúdo com cobertor, almofadas, dois lençóis, um vestido e uma tesoura. As dores voltavam agora com mais força, sentiu que não poderia esperar mais, passou a alça da bolsa pelo pescoço, e apoiando-se nas muletas da mãe saiu pelos fundos da casa. Prendeu a porta por fora e rumou quintal abaixo em direção ao riacho. Ninguém ouviu os gritos meio abafados e os gemidos de dor e solidão. Após algum tempo, que lhe pareceram horas intermináveis, apenas a lua e as águas do rio ouviram um chorinho, quase um miado vindo de um ninho feito de matos, lençóis e almofadas. Exausta, ela sabia que teria que fazer alguns movimentos para terminar de expulsar a placenta, mais algumas horas se passou, o bebê havia alcançado seu seio sem que ela tivesse dado conta, instintivamente ela o embrulhou no cobertor e mãe e filho ficaram se aquecendo mutuamente. Seus planos havia escorrido água abaixo, pensara em jogar aquela criaturazinha no rio ou deixá-lo à sua margem para que fosse levado por algum faminto noturno e pudesse alimentar seus filhotes, mas ele era também um filhote, o seu filhote, que duelara com ela por nove meses. Num gesto preciso e tirando forças não soube de onde, ela sentou-se e cortou o cordão umbilical. Abraçou o filho e se preparou para mais uma batalha… 


* Claude Monet - The River  
 

sábado, 29 de outubro de 2016

Água de coco

Esse conto publiquei no site Wattpad há uns dois anos (+/-),  ia publicá-lo aqui na semana do acidente que vitimou o ator Domingos Montaigner, mas com o ocorrido resolvi não fazê-lo por respeito e também para evitar que associassem a algum tipo de oportunismo. Agora acho que dá...



ÁGUA DE COCO
Zaquel chegava toda sexta-feira por volta das cinco horas da manhã, ficava encostado na parede do galpão perto do latão em chamas para espantar o frio. Dessa forma, garantia bons produtos. Não era de muita conversa, não sorria com facilidade, mas não era uma pessoa rude, talvez porque lidasse com vendas, tinha contato direto com os clientes, precisava ser educado ao tratar as pessoas. Vendia água de coco na “Praia da Boquinha”. Encostava seu carrinho no calçadão, pois não tinha licença da prefeitura para o comércio como ambulante na areia.
A “Praia da Boquinha” era famosa por sua água calma e morninha, não tinha ondas e por isso era indicada para as crianças e os idosos. Era muito frequentada por babás de roupas branquinhas e seus carrinhos de bebês. Esses eram os principais clientes de Zaquel, que se diferenciava dos outros vendedores ao oferecer água doce para lavar as mãozinhas sujas de areia e ofertar um balãozinho para os pequenos. Com essas iniciativas foi ganhando a confiança e o respeito dessa seleta clientela.
Aquela manhã de sexta-feira parecia como outra qualquer. Zaquel comprou sua média de costumeira de 1000 cocos verdes para garantir o fim de semana, na volta passou na lojinha de artigos para festas e comprou mais um pacote de balões coloridos. Foi para casa lavar os cocos e colocá-los para gelar, essa tarefa ele deixava para a esposa e os três filhos executarem. Pensou em dormir um pouco, sexta-feira era um dia dado como perdido, pois ao repor o estoque da mercadoria, Zaquel perdia mais da metade do dia, mas garantia um produto limpo e geladinho no sábado e no domingo. Embora estivesse cansado, Zaquel resolveu não dormir, ao invés disso foi fazer algo que não estava acostumado: foi curtir a praia como uma pessoa comum, sentia que tinha esse direito, curtir a praia!
O sol já rumava para o horizonte quando Zaquel chegou à praia, a brisa que vinha do mar soprava morna, o lugar estava quase deserto, muitas pessoas aproveitavam para caminhar àquela hora no calçadão ou malhar nos aparelhos de ginásticas dispostos em pontos estratégicos da orla. Zaquel tirou a camisa, mas não tirou a bermuda. Caminhou em direção ao mar, molhou os pés e se atirou na água. Sentiu que podia ir mais para dentro, deu braçadas vigorosas e avançou mais um pouco. Mergulhou …nadou…nadou…foi tragado pelas águas morninhas e não voltou. 

domingo, 9 de outubro de 2016

UM CONTO SEM FADAS



UM CONTO SEM FADAS
                              *
A casa era rosa por fora, por dentro era branquinha. Era uma casa perfeita bem mobiliada e muito chique! No primeiro pavimento havia a sala com dois ambientes ― a mesa de jantar era linda…― a cozinha, o lavabo e a lavanderia. No segundo pavimento via-se uma sala de jogos e tv ― provavelmente onde a família passaria horas de diversão e conforto ― depois haviam os quartos, eram quatro e o que seria da menina era o mais bonito, tinha até um tapete felpudo perto da cama! Dava para sentir o aconchego, mesmo do lado de fora da vitrine. Era uma casa de bonecas, mas a negrinha se imaginava no lugar do ser inanimado que iria habitar ali, na verdade sentia até uma pontinha de inveja. Passava na porta da loja todos os dias à noite a caminho de casa, isso já quase um ano, mas aquela casinha de boneca estava exposta ali apenas duas semanas pela aproximação do dia das crianças.
A menina apertou a sacola de encontro ao peito e seguiu o caminho, a mãe com certeza já devia estar preocupada, pois ela não costumava demorar muito, saia do mercadão às seis da tarde, e às sete horas no mais tardar, entrava no barraco. Mas dessa vez ela conseguiu limpar mais de uma barraca e ainda ganhou aquelas verduras e legumes que fatalmente iriam para o lixo, e estavam tão boas! Com esses pensamento apertou o passo e em poucos minutos viu o aglomerado de barracões entre as margens da rodovia e do rio podre que corria na cidade. E pensar que há menos de dois anos morava em outra cidade, em uma casa simples, mas confortável com o pai, a mãe e o irmão. Sentiu um nó na garganta, mas não chorou, aprendeu a não chorar mais. Entrou na favela e de cabeça baixa rumou para o abrigo que ela e a mãe haviam construído com tábuas e outros materiais descartados que encontraram em um bota-fora perto do lixão. Tiveram que se virar para construir aquele caixote no terreno invadido.
Quando a menina entrou em casa com a sacola cheia de frutas e legumes a mãe a olhou com os olhos marejados e pensou que aquela criança só tinha doze anos… crescera, amadurecera muito em apenas um ano, cada mês passado parecia equivaler cem anos! Saíram fugidas do Rio de Janeiro, praticamente apenas com as roupas do corpo, os traficantes que mataram seu marido e o filho mais velho deram a elas apenas quatro horas para saírem do morro. Fizeram duas malas, mais algumas sacolas e saíram sem se despedirem de ninguém, foi a ordem! Mesmo assim, correndo risco de vida, o pastor Isaías lhes deu um dinheirinho e as alertou para levarem o máximo de documentos possível, para recomeçarem a vida, e assim fizeram.
Desde então, estavam ali, tentando recomeçar em outro estado, sobrevivendo à margem da vida. Estavam pagando pela honestidade do marido morto porque se recusou a pagar pela “proteção” da milícia, e que por pura maldade atiraram no filho de apenas quinze anos, o garoto correu para socorrer o pai e recebeu um tiro a queima roupa! Uma semana após o ocorrido veio a ordem para que a mulher e a menina saíssem do morro, para servir como exemplo àqueles que não pagassem para viver ali.
Mas elas estavam vivas e juntas começaram a esvaziar a sacola de feira e a planejarem a sopa que fariam. A faxina que a mãe fizera durante o dia lhes rendeu uma pequena cesta básica, juntas sorriam e falavam do futuro, acreditavam que a situação iria melhorar. Mais tarde foram dormir satisfeitas com o dia vivido e esperançosas de que o seguinte seria melhor ainda. A mãe sonhava que o marido e o filho trabalhavam na pequena mercearia que a família possuíra no passado; a menina sonhava que tinha um quarto, e ele era rosa por fora e branquinho por dentro, havia uma cama de princesa com um tapetinho felpudo perto dela…



*Fonte de imagem: < www.google.com.br >


   

domingo, 2 de outubro de 2016

De príncipe a sapo (e daí?)

Tem uma música de Ivan Lins que diz: "O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida...", acho que é bem por aí o conto de hoje. Espero que gostem!



DE PRÍNCIPE A SAPO (e daí?)


 *

 

Daí que você idealizou seu grande amor desde pequena, e ele mudava de feição para cada história de amor que você ouvia, dependia de onde vinha a história. Ele já teve a cara do primeiro namorado da sua prima mais velha, e teve a cara daquele carinha do filme da sessão da tarde, sabe?Então! Você ficou obcecada por ele e não o perdia de vista, qualquer filme no cinema ou tv em que trabalhava, lá estava você sonhando acordada. Daí que seu quarto parecia um santuário de tanto pôsteres colados na parede, e ainda tinha aquele enorme (tamanho natural!) que você beijava na boca, às escondidas.
Daí que na época do colegial você conheceu outros príncipes. Para cada ano, novos começos, novos rostos e novos amores. Daí que nos três anos do colegial você teve três amores diferentes! E em cada um você identificava uma semelhança com o Encantado, ou com o carinha da sessão da tarde. Aquele do primeiro ano era muuuito parecido até no jeito como ele penteava o cabelo para o lado…― suas amigas não viam nada demais nele. Eram cegas! Já o outro do segundo ano, tinha o sorriso e a cor dos olhos sem tirar nem pôr. O do terceiro ano não se parecia fisicamente, mas além de lindo, tinha o mesmo nome de um dos personagens que o carinha interpretou: Lucas! De concreto mesmo esses três garotos guardavam um ponto em comum: nenhum deles notaram sua existência.
Daí que você passou três anos de sua adolescência amando meninos perfeitos, de belezas estonteantes e populares, mas que nem sabiam teu nome. Daí que o tempo foi passando…passando… e o Encantado, nada!
Daí que você passou a se aventurar pelos sites de relacionamentos, detalhou o perfil de seu príncipe, mas os que surgiram tinham cara de terroristas! Daí que você passou do entusiasmo à decepção em menos de um mês. Desconectou.
Daí que no mundo real você passou às cegas, não conseguiu ver em ninguém qualquer interesse por sua pessoa. Não que você fosse feia, simplesmente não enxergava possíveis amores ao seu lado. Todos seus amigos, antes de serem amigos tentaram uma aproximação mais ousada e você não lhes deu condições, porque nenhum deles se encaixava no molde daquele amor desenhado e maturado em sua cabeça.
Daí que para a festa de confraternização no trabalho, a decisão foi de fazerem um “choco-oculto” e você deixou para comprar o seu a caminho do escritório. O proprietário da loja, e dois funcionários atendiam os clientes com muita atenção, você entrou sorrindo, pois achou graça uma loja de produtos de chocolate ter como logotipo um sapo bem gordinho com olhos bem espertos. Olhando bem, até parecia o dono do estabelecimento! Foi tão espontâneo e sincero o sorriso que o proprietário lhe fez um elogio e te presenteou com uma trufa de maracujá. Você achou simpático e como forma de agradecimento comprou mais de um produto.
Daí que depois desse episódio vocês estão se vendo com muita frequência ― todos os dias da semana, a loja fica no caminho do trabalho, né?― e nos fins de semana, tem sempre um programa a dois no roteiro. Daí que você já ganhou um pouquinho de peso por conta dos doces-presentes, mas nem se importa. Daí que você não sabe se é efeito do chocolate, afinal ele não estimula a produção de serotonina? Porque você anda vendo semelhanças do príncipe encantado naquele sapinho gordo…

*Romero Britto Mini Príncipe Encantado Sapo(Google Images)