quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Começando...




Começando...



Olá, sejam bem-vindos ao Conto sem gliter (é assim mesmo, com apenas um 't', questões de registro!). Eu sou Denise e sempre gostei de  ouvir histórias, aliás, sempre ouvi mais que falei, e de tanto ouvir histórias alheias comecei a colecionar palavras e foram tantas que percebi, se eu não as expulsasse de minha cabeça ficaria louca, então resolvi escrever,  exteriorizar aqueles ecos. Comecei a escrever e não parei mais. Portanto, este  blog é um  espaço  onde posso escrever  sem pressa, com direito a experienciar palavras e também mostrar aos amigos. Não sou escritora, mas gosto de brincar com as palavras! Tenho preferência por contos, tenho alguns já publicados e muitos, muitos, muitos e muitos que vou dividir aqui! Escrevo sobre pessoas, angústias, medos, felicidades e toda sorte de fenômenos que atingem a alma humana, penso na mulher em primeiro plano, mas não exclusivamente, são contos sem fadas, sem brilho e sem glitter. Então, sem mais delongas, leiam e se quiserem comentem, espero que gostem. Bjs...



terça-feira, 20 de março de 2018

Olá pessoas, apresento aqui o conto publicado pela Ciclo Editora, espero que gostem!

                                                                           




                                              ESQUECER... JAMAIS

Dizem que Dolores havia sido uma moça muito bonita quando jovem, mas que perdera o viço e o sabor da vida quando o noivo a deixara dois dias antes do casamento. O rapaz se perdera de amor por outra jovem, bem mais jovem, aliás. Sem coragem para romper o noivado com Dolores, preferiu fugir com o novo amor.
Dolores guardou a dor, o vestido, o enxoval e a vergonha. Saía na rua e fingia não perceber os olhares de piedade ou arremedos de sorrisos solidários dos conhecidos; fingia não saber que todos cochichavam quando se afastava, afinal, viviam numa vila e, às vezes, faltavam assuntos entre as comadres. Ela encarou o fato de ser a protagonista dos disse-que-disse com a convicção de quem não havia cometido nenhum crime que a desabonasse. Sufocou a amargura e seguiu em frente. Nunca mais se envolveu com outra pessoa.
Amigos e familiares evitaram tocar em assuntos que envolvessem a palavra casamento. Mas, para espanto geral, o luto de Dolores durou pouco tempo e ela surpreendeu a todos quando foi visitar a família do ex-noivo, decidida a terminar com o mal-estar resultante da atitude impensada do rapaz. Depois desse fato, ela ganhou o respeito de toda a vila e passou a ser tratada como heroína, aquela que era um exemplo de força e dignidade a ser seguido.
Por isso, foi um reboliço quando chegou a notícia de que ele viria passar o Natal com a família e apresentar um dos quatro filhos que teve. Mais de trinta anos depois, sem dar qualquer informação de seu paradeiro, ele finalmente retornava.
A notícia circulou primeiro entre os familiares do rapaz, que acharam prudente avisar os parentes de Dolores a fim de prepará-la para situação. E, mais uma vez, a mulher deu uma lição de generosidade e gentileza ao se mostrar feliz com a visita do ex-noivo e do filho dele, além de acenar o desejo de reencontrá-lo, sem ressentimentos.
A novidade correu como rastilho de pólvora e, passado o impacto inicial, um clima de festa contagiou todos aqueles que conheciam a história de Dolores. Mas, ainda assim, estavam apreensivos com o reencontro. Qual seria a reação de Dolores? Será que havia superado de verdade o abandono? Será que com ele por perto, ela não daria um escândalo? Era esperar para ver. E o dia chegou!
Depois de descansado da viagem, o rapaz – agora um senhor grisalho – conversou com a família, com os amigos mais íntimos que foram recepcioná-lo, falou das dificuldades da vida como professor, dos quatro filhos que teve e da viuvez. Não, não se arrependera de nada, fora e era ainda feliz! Apenas desejava ter tido mais coragem, ter feito a coisa certa. Quis saber de Dolores. Já sabia que ela não se casara e morava na casinha que seria deles, não é? Será que ela o receberia?
O reencontro aconteceu de forma simples, um pouco formal até: no almoço oferecido por um amigo em comum, um terreno neutro. Começaram meio tímidos, conversaram sobre como o tempo parecia não ter passado para ambos, apesar dos cabelos brancos. Ele mostrou as fotos dos filhos e dos dois netinhos que já tinha; ela falou do curso de enfermagem que fizera e de como gostava de ajudar as pessoas, que abrira um curso e dava aulas. O filho dele também participou da conversa e se mostrou muito interessado em conhecer um pouco do passado do pai, conhecer os familiares e, principalmente, a ex-noiva, a moça abandonada. Gostou de Dolores. Ela tinha um lindo sorriso que contrastava com o olhar, um tanto tristonho! Sentiu pena da mulher!!!
Como pai e filho ficariam mais duas semanas, teriam um tempinho para colocarem os assuntos em dia. Dolores e o ex-noivo passaram a se falar com frequência por telefone, ele chegou a ir buscá-la no hospital e se lembrou do por que se apaixonara por ela. Era divertida, espirituosa e continuava bem bonita. Mas com o coração não se discute... Ele fez o que fez e ponto.
Dolores convidou todos os amigos e familiares para um almoço em sua casa, uma confraternização de despedida, já que pai e filho iriam embora na próxima semana. Na véspera da festa, o ex-noivo ligou para Dolores, convidando-a para um passeio, ali mesmo pela praça, mas infelizmente ela não pôde aceitar; estava às voltas com as aulas, ele sabia como era, mas se quisesse tomar um licor na casa dela, seria bem-vindo. Ele aceitou e foi.
Ele chegou uma hora depois, conforme haviam combinado. Estava muito bonito e levava flores. Ela também caprichara no visual: resolveu fazer o mesmo penteado e maquiagem de anos atrás, quando se preparou para se casar. Ele se espantou quando ela abriu a porta. Nossa, como estava linda!
Dolores convidou-o a entrar e se sentar. Começou falando do trabalho de preparar aulas, fingindo não ter percebido a reação dele. E, assim falando, pegou dois cálices e a garrafa de licor de jenipapo, depositou sobre a mesinha do centro e ele os serviu. Sorveram um pequeno gole, gostaram. Era caseiro, ela o comprara na feira, mas esperava por uma ocasião especial para abrir.
Depois do segundo cálice estavam mais relaxados, mas como ela bem o sabia, ele nunca fora forte com bebida e estava meio zonzo. Já com a fala mais amolecida, ele se disse sonolento, e ela perguntou se ele não queria deitar um pouco. Ele aceitou. Ela o amparou até o quarto e o deitou na cama que um dia quis dividir com ele.
Dolores voltou para a sala e recolheu os copos e os levou até a pia, mas antes bebeu mais uma dose do licor, dessa vez no copo dele. Lavou tudo, guardou a garrafa, foi até o baú que decorava a sala e o abriu. Retirou de lá o vestido de noiva que guardara por mais de trinta anos, vestiu-o, pegou as flores que ele lhe entregara na porta e rumou para o quarto, entoando mentalmente a marcha nupcial. Já estava cambaleando quando alcançou a cama e, sorrindo, se ajeitou ao lado de seu amado. Morreram assim, felizes para sempre, como tinha de ser.





domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lo(ta)ção Perdida


  
Depois de uma pausa para respirar volto a postar e trago a figura de Maria Esperança que tal qual os personagens  Vladmir e Estragon da clássica história Esperando Godot, de Samuel Becket, também espera por algo ou alguém que mude ou dê sentido à sua vida…


*  



  Lo(ta)ção Perdida
O ponto de ônibus estava lotado. Todo dia era essa mesma penúria de disputar um espaço na condução, não conseguir assento mesmo levando sacolas pesadas, levar cotoveladas e empurrões. Vivemos em tempos de escassez geral, falta de tudo um pouco: educação, respeito, solidariedade… Maria Esperança ia fazendo essas tristes constatações enquanto se aproximava da parada do ônibus.
Fazia aquele trajeto já há uns quatro anos, desde que começara a trabalhar na conservadora. Levava uns vinte minutos da escola até ali, e perdia sempre o ônibus que parava próximo à sua casa, de modos que lhe restavam duas opções: embarcar num ônibus superlotado ou esperar uma hora até que aquele perdido retornasse. Normalmente não esperava, entrava naquela lata de sardinha, ia apertada, parava um pouco mais longe de casa, mas em compensação chegava mais cedo. Mas aquele dia resolveu esperar.
Maria Esperança trabalhava como faxineira numa escola das 10hs da manhã até às 17hs; limpava as salas de aula, a sala dos professores, banheiros e ainda auxiliava na cozinha, gostava muito do clima da escola, de ouvir a algazarra das crianças. Além disso, sempre sonhara em um dia poder frequentar uma escola, então aproveitara essa oportunidade. Tinha boa relação com os colegas de trabalho, mas era muito introvertida, não falava muito, mas era bem observadora.
Por diversas vezes Maria Esperança tentara frequentar a escola e por diversas vezes fora impedida. Filha única e temporã de um casal de lavradores, ambos já em idade madura e que não tinham condições de manter a filha na escola, que ficava muito distante do sítio. Quando pode finalmente ir sozinha para a escola, a menina já contava com dez anos de idade, foi matriculada no turno da manhã, mas estudou apenas o primeiro ano básico e não voltou no ano seguinte. Nessa idade já ajudava os pais na lavoura e não conseguia acompanhar os colegas no aprendizado. Mais tarde, quando pode estudar à noite o pai não permitiu: “ … Esse negócio de ler e escrever não é pra moça descente, não. Daqui à pouco taí, escrevendo cartinha para namorado. E estudar naquela lonjura e à noite, mesmo a escola oferecendo transporte era perigoso, não via vantagem naquilo…”. Mas Esperança não queria vantagens, ela queria ler aqueles pedaços de jornal colorido que surgiam em casa, ler as histórias das revistas de fotonovelas que via nas bancas sempre que ia à cidade ou simplesmente poder entrar na biblioteca, coisa que não tinha coragem de fazer …
Como não podia ler histórias, Esperança criava as suas próprias, descobriu que podia inventar histórias de amor, suspense e aventuras. Quando ia até ao centro da cidade gastava algum tempo olhando as capas das revistas nas bancas e, às vezes, até ganhava alguma edição antiga. Memorizava as imagens e já no trajeto ia elaborando suas histórias. Descobriu que podia cria um mundo fantástico paralelo ao seu. 
Desse modo, os anos foram passando e Maria Esperança perdeu sua meninice e juventude trabalhando na roça, até que o pai faleceu e ela e a mãe decidiram ir para a cidade. Aos quarenta e seis anos, após se dedicar e cuidar da mãe, esta veio a falecer. Esperança sofreu um pouco, teve medo de ficar sozinha, mas superou, afinal tinha muitas personagens para criar e lhe dar aconchego.
Agora, sentada no banco frio de cimento, Esperança ajeitou as sacolas de compras junto aos pés e passou a observar as feições das pessoas que passavam, era assim que criava suas histórias. Via a pessoa e imaginava uma história para ela, por exemplo, aquela mocinha que estava tomando um copo de suco sentada no balcão da lanchonete do outro lado da rua. Ela tinha o cabelo colorido de um vermelho forte, usava uma calça de legging preta e uma regatinha estampada. Esperança imaginou que essa moça chamava-se Flor de Liz, tinha dezoito anos, trabalhava como recepcionista em uma academia de ginástica e fazia curso de teatro à noite. Morava com os pais e dividia o quarto com uma irmã mais nova, mas sonhava em morar sozinha e…
Estava perdida nesses pensamentos quando foi interrompida por um senhor que se sentou ao seu lado querendo saber se a linha 420 já havia passado. Esperança respondeu um pouco mal humorada, pois havia sido arrancada de seu universo paralelo e sabia que não iria retomar o fio da história, a moça saiu da lanchonete e ela não viu.  Sentiu raiva daquele cidadão grosseiro que sentou sem cerimônia e invadiu sua fantasia. Olhou para ele com o “rabo” do olho…
Ele devia ter uns cinquenta e poucos anos, vestia uma camisa polo azul claro, calça jeans e sapatos tipo mocassim preto; estava bem arrumado e cheirava bem. Usava aliança, logo era casado. Aparentava ser um homem tranquilo, mas esse tipo de pessoa era mais perigosa. Talvez ele fosse um psicopata! O jeito arrogante como chegou e se dirigiu a ela deu essa dica.
Esperança o denominou Tadeu, era para ser Judas Escariótis, mas ela achou que seria apelação. Não podia se deixar dominar pela raivinha que estava sentindo por ele no momento. De repente, ele olhou pra ela e sorriu!!!
Ela ficou sem jeito, retribuiu o sorriso e refez a sinopse de sua história: bem talvez ele não fosse psicopata, mas um tipo casca-grossa que tratava mal a mulher e os filhos, principalmente, quando exagerava na cerveja. Esperança deu outra olhada discreta nele, precisava pescar mais alguns elementos para montar sua história. Mas, estranhamente não estava conseguindo manter uma linha para sua criação, algo nele estava desviado a atenção de Esperança.
O homem parecia distraído, olhava para todas as direções sem se prender a um ponto fixo; ele parecia estar cantando alguma musica mentalmente, seu semblante era calmo e feliz. Esperança o achou bonito e também muito cheiroso. Era isso! Era a loção pós-barba que a estava desnorteando, era o cheiro de homem. Pensou em puxar conversa, mas nunca foi boa nisso. Ensaiou uma observação sobre o tempo, desistiu… as palavras morreram em sua garganta.
Estava neste dilema quando o ônibus que ela esperava surgiu. Esperança deu um longo suspiro, ajuntou suas sacolas, esperou o ônibus encostar e entrou; passou rápido pela catraca e se sentou; olhou para fora e viu  o “seu homem Tadeu” ainda com o olhar perdido. Maria Esperança fechou os olhos e guardou na memória o perfume da loção pós-barba. 


*Fonte: Google imagens