quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Começando...




Começando...



Olá, sejam bem-vindos ao Conto sem gliter (é assim mesmo, com apenas um 't', questões de registro!). Eu sou Denise e sempre gostei de  ouvir histórias, aliás, sempre ouvi mais que falei, e de tanto ouvir histórias alheias comecei a colecionar palavras e foram tantas que percebi, se eu não as expulsasse de minha cabeça ficaria louca, então resolvi escrever,  exteriorizar aqueles ecos. Comecei a escrever e não parei mais. Portanto, este  blog é um  espaço  onde posso escrever  sem pressa, com direito a experienciar palavras e também mostrar aos amigos. Não sou escritora, mas gosto de brincar com as palavras! Tenho preferência por contos, tenho alguns já publicados e muitos, muitos, muitos e muitos que vou dividir aqui! Escrevo sobre pessoas, angústias, medos, felicidades e toda sorte de fenômenos que atingem a alma humana, penso na mulher em primeiro plano, mas não exclusivamente, são contos sem fadas, sem brilho e sem glitter. Então, sem mais delongas, leiam e se quiserem comentem, espero que gostem. Bjs...



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lo(ta)ção Perdida


  
Depois de uma pausa para respirar volto a postar e trago a figura de Maria Esperança que tal qual os personagens  Vladmir e Estragon da clássica história Esperando Godot, de Samuel Becket, também espera por algo ou alguém que mude ou dê sentido à sua vida…


*  



  Lo(ta)ção Perdida
O ponto de ônibus estava lotado. Todo dia era essa mesma penúria de disputar um espaço na condução, não conseguir assento mesmo levando sacolas pesadas, levar cotoveladas e empurrões. Vivemos em tempos de escassez geral, falta de tudo um pouco: educação, respeito, solidariedade… Maria Esperança ia fazendo essas tristes constatações enquanto se aproximava da parada do ônibus.
Fazia aquele trajeto já há uns quatro anos, desde que começara a trabalhar na conservadora. Levava uns vinte minutos da escola até ali, e perdia sempre o ônibus que parava próximo à sua casa, de modos que lhe restavam duas opções: embarcar num ônibus superlotado ou esperar uma hora até que aquele perdido retornasse. Normalmente não esperava, entrava naquela lata de sardinha, ia apertada, parava um pouco mais longe de casa, mas em compensação chegava mais cedo. Mas aquele dia resolveu esperar.
Maria Esperança trabalhava como faxineira numa escola das 10hs da manhã até às 17hs; limpava as salas de aula, a sala dos professores, banheiros e ainda auxiliava na cozinha, gostava muito do clima da escola, de ouvir a algazarra das crianças. Além disso, sempre sonhara em um dia poder frequentar uma escola, então aproveitara essa oportunidade. Tinha boa relação com os colegas de trabalho, mas era muito introvertida, não falava muito, mas era bem observadora.
Por diversas vezes Maria Esperança tentara frequentar a escola e por diversas vezes fora impedida. Filha única e temporã de um casal de lavradores, ambos já em idade madura e que não tinham condições de manter a filha na escola, que ficava muito distante do sítio. Quando pode finalmente ir sozinha para a escola, a menina já contava com dez anos de idade, foi matriculada no turno da manhã, mas estudou apenas o primeiro ano básico e não voltou no ano seguinte. Nessa idade já ajudava os pais na lavoura e não conseguia acompanhar os colegas no aprendizado. Mais tarde, quando pode estudar à noite o pai não permitiu: “ … Esse negócio de ler e escrever não é pra moça descente, não. Daqui à pouco taí, escrevendo cartinha para namorado. E estudar naquela lonjura e à noite, mesmo a escola oferecendo transporte era perigoso, não via vantagem naquilo…”. Mas Esperança não queria vantagens, ela queria ler aqueles pedaços de jornal colorido que surgiam em casa, ler as histórias das revistas de fotonovelas que via nas bancas sempre que ia à cidade ou simplesmente poder entrar na biblioteca, coisa que não tinha coragem de fazer …
Como não podia ler histórias, Esperança criava as suas próprias, descobriu que podia inventar histórias de amor, suspense e aventuras. Quando ia até ao centro da cidade gastava algum tempo olhando as capas das revistas nas bancas e, às vezes, até ganhava alguma edição antiga. Memorizava as imagens e já no trajeto ia elaborando suas histórias. Descobriu que podia cria um mundo fantástico paralelo ao seu. 
Desse modo, os anos foram passando e Maria Esperança perdeu sua meninice e juventude trabalhando na roça, até que o pai faleceu e ela e a mãe decidiram ir para a cidade. Aos quarenta e seis anos, após se dedicar e cuidar da mãe, esta veio a falecer. Esperança sofreu um pouco, teve medo de ficar sozinha, mas superou, afinal tinha muitas personagens para criar e lhe dar aconchego.
Agora, sentada no banco frio de cimento, Esperança ajeitou as sacolas de compras junto aos pés e passou a observar as feições das pessoas que passavam, era assim que criava suas histórias. Via a pessoa e imaginava uma história para ela, por exemplo, aquela mocinha que estava tomando um copo de suco sentada no balcão da lanchonete do outro lado da rua. Ela tinha o cabelo colorido de um vermelho forte, usava uma calça de legging preta e uma regatinha estampada. Esperança imaginou que essa moça chamava-se Flor de Liz, tinha dezoito anos, trabalhava como recepcionista em uma academia de ginástica e fazia curso de teatro à noite. Morava com os pais e dividia o quarto com uma irmã mais nova, mas sonhava em morar sozinha e…
Estava perdida nesses pensamentos quando foi interrompida por um senhor que se sentou ao seu lado querendo saber se a linha 420 já havia passado. Esperança respondeu um pouco mal humorada, pois havia sido arrancada de seu universo paralelo e sabia que não iria retomar o fio da história, a moça saiu da lanchonete e ela não viu.  Sentiu raiva daquele cidadão grosseiro que sentou sem cerimônia e invadiu sua fantasia. Olhou para ele com o “rabo” do olho…
Ele devia ter uns cinquenta e poucos anos, vestia uma camisa polo azul claro, calça jeans e sapatos tipo mocassim preto; estava bem arrumado e cheirava bem. Usava aliança, logo era casado. Aparentava ser um homem tranquilo, mas esse tipo de pessoa era mais perigosa. Talvez ele fosse um psicopata! O jeito arrogante como chegou e se dirigiu a ela deu essa dica.
Esperança o denominou Tadeu, era para ser Judas Escariótis, mas ela achou que seria apelação. Não podia se deixar dominar pela raivinha que estava sentindo por ele no momento. De repente, ele olhou pra ela e sorriu!!!
Ela ficou sem jeito, retribuiu o sorriso e refez a sinopse de sua história: bem talvez ele não fosse psicopata, mas um tipo casca-grossa que tratava mal a mulher e os filhos, principalmente, quando exagerava na cerveja. Esperança deu outra olhada discreta nele, precisava pescar mais alguns elementos para montar sua história. Mas, estranhamente não estava conseguindo manter uma linha para sua criação, algo nele estava desviado a atenção de Esperança.
O homem parecia distraído, olhava para todas as direções sem se prender a um ponto fixo; ele parecia estar cantando alguma musica mentalmente, seu semblante era calmo e feliz. Esperança o achou bonito e também muito cheiroso. Era isso! Era a loção pós-barba que a estava desnorteando, era o cheiro de homem. Pensou em puxar conversa, mas nunca foi boa nisso. Ensaiou uma observação sobre o tempo, desistiu… as palavras morreram em sua garganta.
Estava neste dilema quando o ônibus que ela esperava surgiu. Esperança deu um longo suspiro, ajuntou suas sacolas, esperou o ônibus encostar e entrou; passou rápido pela catraca e se sentou; olhou para fora e viu  o “seu homem Tadeu” ainda com o olhar perdido. Maria Esperança fechou os olhos e guardou na memória o perfume da loção pós-barba. 


*Fonte: Google imagens